segunda-feira, 16 de novembro de 2009

pois zé

Às vezes nos sentamos sozinhos no meio de livros de arte e ficamos vendo os rostos conhecidos que marcaram a historia e ficamos pensando quando será a nossa vez.
Às vezes estamos fazendo tantas coisas para os outros, por causa de um pouco de grana, por causa de um pouco de medo, por causa de sede, por causa de fome, e ficamos olhando para o sol lá fora e pensando quando será possível parar e ser apenas o sol.

Às vezes estamos sentados ao sol pensando na arte e em quando será a nossa vez, e de repente acordamos desse devaneio sonífero de dentro de nós por uma árvore que tomba aos nosso pés, por um estrondo, pela morte que tomba e aterriza ao celular, na caixa postal dos emails.

Às vezes acordamos e vemos a morte e pensamos quando será a nossa vez.
Quando a morte tomba, nós aterrizamos e pensamos que não há vez, que ela não chega, que ela está.

hoje estou atordoada. hoje estou atrapalhada, atrasada, cansada, amedrontada, arrependida, apavorada, ansiosa, chorosa, tremendo, palpitando, fugindo, trabalhando, cansando, não entendendo, descobrindo.

hoje eu estava sentada olhando todos os livros de arte à minha volta, falando de renomes falando de fatos, e atendi o celular e fiquei sabendo que meu amigo, nosso amigo, o ator, o zé mário storino faleceu. foi de repente como foi de repente outras pessoas a pouco tempo, foi de repente como será sempre e tantas mais

eu estive na vida, eu tenho estado por aí, eu tenho me perdido e sentido nada e medo junto, eu tenho amputado, comido, acovardado, seiplanciado, excluído. eu tenho calado, eu tenho fugido, eu tenho sorrido, doído, rasgado, derramado, bebido, tocado, dormido e sonhado.
eu tenho estado tão só quanto eu quis. eu tenho deixado estar quando o outro quis. eu nem tenho mais o que eu achei que...

estou costurando
as le
trás

as lãs as
lâminas
as agulhas
as carcaças de cebola e alho na carne cozida na frigideira

fumaçacarinhoemmim, farinhaumfavor!
fumaçacarinhoassim-comoseflorescesse
capimdoce

comoseflorescesse arrepiodopêlocaminho.

abóborame!


tenho temos tido temido túmulos tumultuado coração, secreção, ereção, salpicão, salidão, salão salinha sol e drão
o zé era tão especial, legal, macio, cheio de vida de muito mais adiante. ele tinha ele tem 52 anos. é mesmo uma barca, Carol, é mesmo uma barca!

...

às vezes a gente senta e fica olhando a tela do computador, a tela
a tela
tela

perdoa
doa
perdi a proa, o bico, o salto. Mas não perco-me.
(Esquisito é achar-se inteiro. Desse modo, melhor perdido ou encontrado?)
Sentido, com certeza melhor sentido!
Vai a barca rumo a algum norte.
O do humano, o da morte.




2 comentários:

joão de ricardo disse...

que triste. ao mesmo tempo que bonito.

dionescamargo disse...

Singelo e grandiloquente ao mesmo tempo. Como a vida que disperdiçamos a cada segundo.