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segunda-feira, 7 de junho de 2010
domingo, 6 de junho de 2010
dica da sereia
Ontém eu assisti um filme do mar, as câmeras com nadadeiras foram ver bem no fundo, e na superfície das águas, os animais como bailarinos sem peso em sua atmosfera salgada, os encontros de amor e fome, os predadores, as dores do homem nos peixes e barbatanas, terríveis maravilhosos de um imenso mundo paralelo à terra, o Oceano!
O filme é liindo e verdadeiro como é a natureza, são muitas histórias, roteiros de ação e luta pela vida, tudo na realidade do mar. Mais que registro, poesias de Netuno, em câmeras de altíssima definição. A sereia em mim chorou (rrss)."Oceanos", de Jacques Cluzaud e Jacques Perrin está na programação do Festival Varilux da Cinema Francês, no Unibanco Arteplex em Porto Alegre.
O filme tem mais duas sessões aqui:
O filme tem mais duas sessões aqui:
08.06, ter, 16h20, Arteplex Bourbon
09.06, qua, 20h40, Arteplex Bourbon
.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
yo, la isla
A la Isla de Pascua y las presencias
salgo, saciado de puertas y calles,
a buscar algo que allí no perdí.
El mes de Enero, seco,
se parece a una espiga:
cuelga de Chile su luz amarilla
hasta que el mar lo borra
y salgo otra vez, a regresar.
Estatuas que la noche construyó
y desgranó en un círculo cerrado
para que no las viera sino el mar.
(Viajé a recuperarlas, a erigirlas
en mi domicilio desaparecido.)
Y aquí rodeado de presencias grises,
de blancura espacial, de movimiento
azul, agua marina, nubes, piedra,
recomienzo las vidas de mi vida.
salgo, saciado de puertas y calles,
a buscar algo que allí no perdí.
El mes de Enero, seco,
se parece a una espiga:
cuelga de Chile su luz amarilla
hasta que el mar lo borra
y salgo otra vez, a regresar.
Estatuas que la noche construyó
y desgranó en un círculo cerrado
para que no las viera sino el mar.
(Viajé a recuperarlas, a erigirlas
en mi domicilio desaparecido.)
Y aquí rodeado de presencias grises,
de blancura espacial, de movimiento
azul, agua marina, nubes, piedra,
recomienzo las vidas de mi vida.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Teresas de Recife
Em Recife encontrei duas Teresas pela janela...
eu não anotei o nome da artista que fez os trabalhos em papel maché, que pena... são lindos!
terça-feira, 18 de maio de 2010
quinta-feira, 6 de maio de 2010
(...) Uma mulher histérica é capaz de acreditar em qualquer coisa a respeito de si mesma - que dormiu com Napoleão, que ofereceu seus lábios a Deus. Pode dizer que satisfez seu apetite sexual com bodes ou pôneis das ilhas Shetland. Pode confessar que fez amor com seis homens ao mesmo tempo e com cada um deles no auge de sua forma. Pode sacudir-se tanto com a música que até a memória de suas paixões se desintegra, desaba como um prédio em chamas. Tudo que não é de pedra arde. Os órgãos permanecem intactos, mármore mudo lambido com erotismo, êxtase projetado como numa tela branca. Tranquem todas as portas e ponham fogo na casa, onde a estátua está de pé, masturbando mentiras. Pois nesse lugar haverá ainda música, o arrepio da pedra em chamas e fogo jorrando gelo. Apunhalem a mulher várias vezes. Mergulhem o olhar cada vez mais fundo no sonho, nada senão a repetição da morte, olhos vidrados de êxtase, cada clic do obturtador uma mentira, uma fornicação. Quando a mulher de órgãos de mármore tenta deitar-se com Deus, a divindade atinge a menopausa. O que era drama antigo, nobre música de mito e lenda, termina em profilaxia. Aqueles que um dia se sentiram como personagens vêem seus papéis se desfazerem em pó e em serragem. Outrora o mundo foi jovem e as feridas eram ostentadas com orgulho, pois Deus havia posto o dedo nas feridas e elas não deveriam cicatrizar - deviam ser suportadas com bravura e sofrimento. Agora, porém, nós somos como chalupas avariadas na tempestade - e é possível enfiar um guarda-chuva pelas nossas feridas abertas -, mas não há sofrimento nem bravura. Nós e nosso personagens - porque nós somos os nossos personagens - afundamos como navios abandonados, chalupas por demais avariadas, incapazes de resistir à primeira tempestade.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
sopro
Ângela - Eu desmaio à toa.
Na última vez foi questão de segundo. Caio felizmente na cama e eis o vazio, e logo depois eu dizia a mim mesma: não foi nada, já passou. Alô! Alô! Picasso! Vem me ver, por favor especial. Sou um pinto depenado.
Mas que foguete! Comemorando o quê? pergunto eu.
Eu me olho de fora para dentro e vejo: nada. Meu cachorro está inquieto. Há alguma coisa no ar. Uma transmissão de pensamentos. Por que as pessoas quando falam não me olham? Olham sempre para outra pessoa. Eu me ressinto. Mas Deus me olha bem na menina dos olhos. E eu o encaro de frente. Ele é meu pai-mãe-mãe-pai. E eu sou eles. Acho que em breve vou ver Deus. Vai ser O Encontro. Pois eu me arrisco.
(...)
Quando pequena eu rodava, rodava e rodava em torno de mim mesma até ficar tonta e cair. Cair não era bom mas a tonteira era deliciosa.
Ficar tonta era o meu vício. Adulta eu rodo, mas quando fico tonta, aproveito de seus poucos instantes para voar.
Acho que loucura é perfeição. É como enxergar. Ver é a pura loucura do corpo. Letargia. A sensibilidade trêmula tornando tudo ao redor mais sensível e tornando visível, como um pequeno susto, o impalpável. Às vezes acontece um desequilíbrio equilibrado assim como uma gangorra que ora está no alto, ora está no baixo. E o desequilíbrio é exatamente o seu equilíbrio.
Clarice Lispector
Mas que foguete! Comemorando o quê? pergunto eu.
Eu me olho de fora para dentro e vejo: nada. Meu cachorro está inquieto. Há alguma coisa no ar. Uma transmissão de pensamentos. Por que as pessoas quando falam não me olham? Olham sempre para outra pessoa. Eu me ressinto. Mas Deus me olha bem na menina dos olhos. E eu o encaro de frente. Ele é meu pai-mãe-mãe-pai. E eu sou eles. Acho que em breve vou ver Deus. Vai ser O Encontro. Pois eu me arrisco.
(...)
Quando pequena eu rodava, rodava e rodava em torno de mim mesma até ficar tonta e cair. Cair não era bom mas a tonteira era deliciosa.
Ficar tonta era o meu vício. Adulta eu rodo, mas quando fico tonta, aproveito de seus poucos instantes para voar.
Acho que loucura é perfeição. É como enxergar. Ver é a pura loucura do corpo. Letargia. A sensibilidade trêmula tornando tudo ao redor mais sensível e tornando visível, como um pequeno susto, o impalpável. Às vezes acontece um desequilíbrio equilibrado assim como uma gangorra que ora está no alto, ora está no baixo. E o desequilíbrio é exatamente o seu equilíbrio.
Clarice Lispector
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
domingo, 22 de novembro de 2009
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
pois zé
Às vezes nos sentamos sozinhos no meio de livros de arte e ficamos vendo os rostos conhecidos que marcaram a historia e ficamos pensando quando será a nossa vez.
Às vezes estamos fazendo tantas coisas para os outros, por causa de um pouco de grana, por causa de um pouco de medo, por causa de sede, por causa de fome, e ficamos olhando para o sol lá fora e pensando quando será possível parar e ser apenas o sol.
Às vezes estamos sentados ao sol pensando na arte e em quando será a nossa vez, e de repente acordamos desse devaneio sonífero de dentro de nós por uma árvore que tomba aos nosso pés, por um estrondo, pela morte que tomba e aterriza ao celular, na caixa postal dos emails.
Às vezes acordamos e vemos a morte e pensamos quando será a nossa vez.
Quando a morte tomba, nós aterrizamos e pensamos que não há vez, que ela não chega, que ela está.
hoje estou atordoada. hoje estou atrapalhada, atrasada, cansada, amedrontada, arrependida, apavorada, ansiosa, chorosa, tremendo, palpitando, fugindo, trabalhando, cansando, não entendendo, descobrindo.
hoje eu estava sentada olhando todos os livros de arte à minha volta, falando de renomes falando de fatos, e atendi o celular e fiquei sabendo que meu amigo, nosso amigo, o ator, o zé mário storino faleceu. foi de repente como foi de repente outras pessoas a pouco tempo, foi de repente como será sempre e tantas mais
eu estive na vida, eu tenho estado por aí, eu tenho me perdido e sentido nada e medo junto, eu tenho amputado, comido, acovardado, seiplanciado, excluído. eu tenho calado, eu tenho fugido, eu tenho sorrido, doído, rasgado, derramado, bebido, tocado, dormido e sonhado.
eu tenho estado tão só quanto eu quis. eu tenho deixado estar quando o outro quis. eu nem tenho mais o que eu achei que...
estou costurando
as le
trás
as lãs as
lâminas
as agulhas
as carcaças de cebola e alho na carne cozida na frigideira
fumaçacarinhoemmim, farinhaumfavor!
fumaçacarinhoassim-comoseflorescesse
capimdoce
comoseflorescesse arrepiodopêlocaminho.
abóborame!
tenho temos tido temido túmulos tumultuado coração, secreção, ereção, salpicão, salidão, salão salinha sol e drão
o zé era tão especial, legal, macio, cheio de vida de muito mais adiante. ele tinha ele tem 52 anos. é mesmo uma barca, Carol, é mesmo uma barca!
...
às vezes a gente senta e fica olhando a tela do computador, a tela
a tela
tela
perdoa
doa
perdi a proa, o bico, o salto. Mas não perco-me.
(Esquisito é achar-se inteiro. Desse modo, melhor perdido ou encontrado?)
Sentido, com certeza melhor sentido!
Vai a barca rumo a algum norte.
O do humano, o da morte.
Às vezes estamos sentados ao sol pensando na arte e em quando será a nossa vez, e de repente acordamos desse devaneio sonífero de dentro de nós por uma árvore que tomba aos nosso pés, por um estrondo, pela morte que tomba e aterriza ao celular, na caixa postal dos emails.
Às vezes acordamos e vemos a morte e pensamos quando será a nossa vez.
Quando a morte tomba, nós aterrizamos e pensamos que não há vez, que ela não chega, que ela está.
hoje estou atordoada. hoje estou atrapalhada, atrasada, cansada, amedrontada, arrependida, apavorada, ansiosa, chorosa, tremendo, palpitando, fugindo, trabalhando, cansando, não entendendo, descobrindo.
hoje eu estava sentada olhando todos os livros de arte à minha volta, falando de renomes falando de fatos, e atendi o celular e fiquei sabendo que meu amigo, nosso amigo, o ator, o zé mário storino faleceu. foi de repente como foi de repente outras pessoas a pouco tempo, foi de repente como será sempre e tantas mais
eu estive na vida, eu tenho estado por aí, eu tenho me perdido e sentido nada e medo junto, eu tenho amputado, comido, acovardado, seiplanciado, excluído. eu tenho calado, eu tenho fugido, eu tenho sorrido, doído, rasgado, derramado, bebido, tocado, dormido e sonhado.
eu tenho estado tão só quanto eu quis. eu tenho deixado estar quando o outro quis. eu nem tenho mais o que eu achei que...
estou costurando
as le
trás
as lãs as
lâminas
as agulhas
as carcaças de cebola e alho na carne cozida na frigideira
fumaçacarinhoemmim, farinhaumfavor!
fumaçacarinhoassim-comoseflorescesse
capimdoce
comoseflorescesse arrepiodopêlocaminho.
abóborame!
tenho temos tido temido túmulos tumultuado coração, secreção, ereção, salpicão, salidão, salão salinha sol e drão
o zé era tão especial, legal, macio, cheio de vida de muito mais adiante. ele tinha ele tem 52 anos. é mesmo uma barca, Carol, é mesmo uma barca!
...
às vezes a gente senta e fica olhando a tela do computador, a tela
a tela
tela
perdoa
doa
perdi a proa, o bico, o salto. Mas não perco-me.
(Esquisito é achar-se inteiro. Desse modo, melhor perdido ou encontrado?)
Sentido, com certeza melhor sentido!
Vai a barca rumo a algum norte.
O do humano, o da morte.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
O papel político do artista na propagação da dignidade humana
Quando nos olhamos num espelho, pensamos que a imagem que temos diante de nós é exata. Porém, basta nos movermos um milímetro e a imagem muda. Estamos olhando, na verdade, para uma infindável gama de reflexos. Mas às vezes um escritor precisa quebrar o espelho – pois é do outro lado do espelho que a verdade nos encara. Apesar das enormes variáveis existentes, creio que a determinação intelectual destemida, inarredável e feroz, como cidadãos, de definir a verdade real de nossas vidas e de nossa sociedade, é uma obrigação crucial, que cabe a todos nós. Ela é, de fato, imperiosa. Se essa determinação não estiver incorporada à nossa visão política, não teremos esperança de restabelecer o que está quase perdido para nós – a dignidade humana.
Harold Pinter, discurso do Prêmio Nobel.
sábado, 7 de novembro de 2009
Alice e o Rei
"Agora está sonhando", observou Tweedledee. “Com que acha que ele sonha?”
- GARDNER, Martin ; CARROLL, Lewis. Alice, edição comentada. Ed. Jorge Zahar: Rio de Janeiro, 2002.

(foto de Elene Usdin)
Alice disse: “Isso ninguém pode saber.”
“Ora, com você!” Tweedledee exclamou, batendo palmas triunfante. “E se parasse de sonhar com você, onde acha que você estaria?”
“Onde estou agora, é claro,” respondeu Alice.
“Não, não!” Tweedledee retrucou, desdenhoso. “Não estaria em lugar algum. Ora, você é só uma espécie de coisa do sonho dele!”
“Se o Rei acordasse”, acrescentou Tweedledum, “você sumiria... puf!... exatamente como uma vela!”
“Não sumiria!” Alice exclamou indignada. “Além disso, se sou só uma espécie de coisa no sonho dele, gostaria de saber o que vocês são?”
“Idem”, disse Tweedledum.
“Idem, ibidem”, gritou Tweedledee.
E gritou tão alto que Alice não pode se impedir de dizer: “Psss! Receio que vá acordá-lo se fizer tanto barulho.”
“Bem, não adianta você falar sobre acordá-lo”, disse Tweedledum, “quando não passa de uma das coisas do sonho dele. Você sabe muito bem que não é real.”
“Eu sou real!” disse Alice e começou a chorar.
“Não vai ficar nem um pingo mais real chorando”, observou Tweedledee. “Não há motivo para choro.”
“Se eu não fosse real”, disse Alice – meio rindo por entre as lágrimas, tão absurdo aquilo tudo parecia – “não conseguiria chorar.”
“Espero que não imagine que suas lágrimas são reais!” Tweedledee interrompeu-a, num tom de profundo desdém.
“Ora, com você!” Tweedledee exclamou, batendo palmas triunfante. “E se parasse de sonhar com você, onde acha que você estaria?”
“Onde estou agora, é claro,” respondeu Alice.
“Não, não!” Tweedledee retrucou, desdenhoso. “Não estaria em lugar algum. Ora, você é só uma espécie de coisa do sonho dele!”
“Se o Rei acordasse”, acrescentou Tweedledum, “você sumiria... puf!... exatamente como uma vela!”
“Não sumiria!” Alice exclamou indignada. “Além disso, se sou só uma espécie de coisa no sonho dele, gostaria de saber o que vocês são?”
“Idem”, disse Tweedledum.
“Idem, ibidem”, gritou Tweedledee.
E gritou tão alto que Alice não pode se impedir de dizer: “Psss! Receio que vá acordá-lo se fizer tanto barulho.”
“Bem, não adianta você falar sobre acordá-lo”, disse Tweedledum, “quando não passa de uma das coisas do sonho dele. Você sabe muito bem que não é real.”
“Eu sou real!” disse Alice e começou a chorar.
“Não vai ficar nem um pingo mais real chorando”, observou Tweedledee. “Não há motivo para choro.”
“Se eu não fosse real”, disse Alice – meio rindo por entre as lágrimas, tão absurdo aquilo tudo parecia – “não conseguiria chorar.”
“Espero que não imagine que suas lágrimas são reais!” Tweedledee interrompeu-a, num tom de profundo desdém.
- GARDNER, Martin ; CARROLL, Lewis. Alice, edição comentada. Ed. Jorge Zahar: Rio de Janeiro, 2002.

(foto de Elene Usdin)
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
domingo, 1 de novembro de 2009
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
um peixe chamado lynch
O desejo por uma idéia é como uma pescaria. Quando se pesca, é preciso ter paciência. Você coloca a isca no anzol e depois espera. O desejo é a isca do anzol que atrai o peixe, ou seja, as idéias. O bom disso é que, quando se pega um peixe do qual se gosta, mesmo que não passe de um peixinho – o fragmento de uma idéia -, ele atrai outros peixes, e todos acabam sendo pescados. E se está então no caminho certo. Logo haverá mais e mais fragmentos, fazendo emergir a idéia completa. Tudo isso, porém, começa pelo desejo.
David Lynch ("Em águas profundas")

(pintura de J. Vincent)
David Lynch ("Em águas profundas")

(pintura de J. Vincent)
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