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quarta-feira, 20 de maio de 2009
Lisandro:
eu tinha oito ou doze anos de idade a minha MÃE estava sentada na escada de casa, esperando meu pai, eles iam a um casamento. A minha MÃE estava linda, tinha um vento leva que mexia os cabelos dela, mas tinha água nos olhos da minha MÃE. O meu pai chegou e eles foram embora. Eu corri pro quarto dela, me tranquei lá me agarrei no roupão que ela estava usando e senti o cheiro da minha MÃE. Naquele momento a água dos olhos dela passou para os meus. Desde aquele momento essa água me acompanha.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Eu não sou Teresa eu sou...
Uma sopa de dentes mastigada lentamente
Um trator na beira do abismo
A minhoca no bico do pássaro na boca do gato
Urro bestial enquanto explodem os fogos do ano novo
O arco-íris me quebrando a espinha
A pedra num sono sem luz
Um urso polar engasgado com uma lata de coca-cola
Nuvem radioativa derretendo a pele da cidade púrpura
Chuva de canivetes chuva de sapos chuva de sangue
Chuva de leite e mel tão doce como qualquer veneno
Tsunami na piscina do condomínio
Artérias bombeando lama
Moscas nas mãos de meninos travessos
A torre dolorida pelos aviões e pelos raios
Um exército enterrado vivo
Godzila na geriatria
A abdução de qualquer sentimento
Lamber um osso até virar palito
Um trator na beira do abismo
A minhoca no bico do pássaro na boca do gato
Urro bestial enquanto explodem os fogos do ano novo
O arco-íris me quebrando a espinha
A pedra num sono sem luz
Um urso polar engasgado com uma lata de coca-cola
Nuvem radioativa derretendo a pele da cidade púrpura
Chuva de canivetes chuva de sapos chuva de sangue
Chuva de leite e mel tão doce como qualquer veneno
Tsunami na piscina do condomínio
Artérias bombeando lama
Moscas nas mãos de meninos travessos
A torre dolorida pelos aviões e pelos raios
Um exército enterrado vivo
Godzila na geriatria
A abdução de qualquer sentimento
Lamber um osso até virar palito
terça-feira, 28 de abril de 2009
quando 2 corações....
domingo, 19 de abril de 2009
o domingo foi muito lindo =D
dia lindo hoje né uma beleza a chuva
vontade de sair voando por entre as nuvens
tem um dia lindo acima das nuvens
acho o dia das nuvens lindo
mergulharia nelas
estava pondo meus pés na água, mas não havia água ali, era apenas as madeiras e o concreto do piso do quarto rajado de canos elétricos e os pés mergulhando macios
herdei essa insônia da minha mãe
a luz fere os olhos de sobremaneira
nem fechando as pálpebras deixo de ver
as mitocondrias são uma herança materna
ae preciso me esconder em lugares realmente escuros
e mesmo assim não durmo
condenado a ver e ouvir tudo
mergulhar numa nuvem fundo
vontade de sair voando por entre as nuvens
tem um dia lindo acima das nuvens
acho o dia das nuvens lindo
mergulharia nelas
estava pondo meus pés na água, mas não havia água ali, era apenas as madeiras e o concreto do piso do quarto rajado de canos elétricos e os pés mergulhando macios
herdei essa insônia da minha mãe
a luz fere os olhos de sobremaneira
nem fechando as pálpebras deixo de ver
as mitocondrias são uma herança materna
ae preciso me esconder em lugares realmente escuros
e mesmo assim não durmo
condenado a ver e ouvir tudo
mergulhar numa nuvem fundo
domingo, 19 de outubro de 2008
Cartas do S.éu para o Mar
Dessas paixões de jogar garrafas ao mar.
Elas podem bater no casco de qualquer navio,
quebrar, mudar de rumo
Mas os amantes, pendurados em nuvens,
as procuram com a ponta dos pés
Para capturarem-nas
e bebê-las
Elas podem bater no casco de qualquer navio,
quebrar, mudar de rumo
Mas os amantes, pendurados em nuvens,
as procuram com a ponta dos pés
Para capturarem-nas
e bebê-las
ensaio
Ele segura os cabelos dela, tentando tirar a flor que ficou presa. Ele puxa forte, mas os espinhos estão enredados. Ela pede que ele não arranque seus cabelos. Ela olha para o chão e vê os pingos. Os espinhos estão cravando seu crânio e as mãos dele. Ele diz que vai ter que cortar os fios, e faz palpites sobre quanto tempo leva para crescer. Ela diz que um ano e meio, e que nesse tempo se pode gerar uma criança. Ele pergunta se ela está grávida, a deita no chão e a abraça. Ela diz que não é uma criança, mas um peixe. "Eu preciso te contar uma coisa: me apaixonei por outra pessoa. Netuno!" "Netuno?", ele pergunta. "Quem é esse cara?". "Netuno!", ela diz, "O grande de barbas. O Rei dos mares! Tu nunca viu a foto dele nos livros e revistas?" Ele, a essa altura, arremessa cadeiras, soca o colchão e se enrola na cortina. "Me apaixonei pelo próprio mar", ela responde.
sábado, 13 de setembro de 2008
em trânsito
A casa do avô
1(palco imerso em escuridão total. pino de luz revela homem de olhar baixo. Subitamente encara a platéia. ele fala rapidamente, entrecortado por silêncios e escuridão):
é inverno. (pausa) ele está congelando.(pausa)
ESSES FLUXOS DE TRANSITO BARULHENTO NAS NOITES CHUVOSAS DE RUSH. luzescruzantesbrancasamarelasvermelhas
buzinaços
a mandíbula se contrai
o celulartoca (pausa)
eu não sei onde vou morar. (pausa) ele pensou sem atender o telefone.
(pausa) eu não sei pra onde eu vou nesse exato momento. Só sei que vou. Eu tenho somente ido, sem saber pra onde. Meus pés afundados no acelerador. Mas nessa merda de transito nada parece realmente se mover.(pausa)
ele estava em busca de algum lugar pra ficar alguma coisa na qual se agarrar alguém pra conversar foder casar qualquer coisa uma casa um corpo um quarto de hotel um homem um irmão qualquer pessoa alguém. (pausa)
nem rádio tem pra tocar nessa merda!(pausa) roubaram meu rádio. Meu mp3 tá sem bateria. Que merda eu ter logo comprado uma bostinha dessas que ainda usa pilhas pilhas pilhas. Me roubaram vendendo essa merda. Me roubaram o rádio. Me roubam todo dia. Todo dia sendo roubado. Vontade de enfiar a cara e o carro no primeiro poste. (pausa) mas nada anda por aqui. (pausa)
os dedos dele estavam congelando, o dos pés, molhados até os ossos os das mãos enrijecidos como garras retorcidas no volante. o dinheiro ele sabia que só tinha garantido até daqui o próximo (pausa) a próxima (pausa) esquina (pausa) do próximo (pausa) ano (pausa) do próximo mês até o próximo dia hora minuto e segundo. o dinheiro corre.(pausa) o dinheiro escorre e corre solto, o dinheiro dinheiro (pausa) era preciso muito dinheiro e paciência para sobreviver nesse caos mediado pelo consumo.(pausa) sobreviver aqui sobreviver, não viver, sobreviver. Só, sobreviver, sobreviver só. (pausa)
se ao menos que ele fosse pra bem longe.onde o olhar do outro não o tocasse não. Onde o desejo não desejasse. (pausa)
ai que vontade do esse outro do olhar do toque desse outro figura impossível sem dinheiro meu coração acelera motor cheio de faíscas e barulho. Não to com tesão eu to com, com essa velocidade que me come por dentro, E ESSA PORRA DE TRANSITO NÃO ANDA!
(pausa)esse lugar onde todo fim de mês não chegassem aquelas continhas todas nojentas onde ele parasse de perder tempo discando inúmeras vezes para serviços de tele qualquer coisa que o devoravam pelos ossos entrando em filas de bancos nos quartos de motel entristecido pelas pelas ruas imundas dando adeus caminhando entrando e saindo do carro encharcado em alta velocidade sempre. (pausa)
a chuva cai pesada lá fora o (pausa) qual é o nome daquela pazinha de borracha que espalha vaievem vaievem limpando quase inutilmente tentando afastar a aguaceiro que cai no vidro? (pausa) o parabrisa para chuva para-something o para brisa é o vidro mesmo e a pazinha? ahh a pazinha maldita não dá nãooo dá conta de tanta água que cai e tanta buzina na cabeça e tanta não saber onde chegar. e ele sua ele sua vertiginoso. sua frio em meio a ESSES FLUXOS DE TRANSITO BARULHENTO NAS NOITES CHUVOSAS E FRIAS!!! E FRIAS DE RUSH luzescruzantesbrancasamarelasvermelhas
buzinaços
a mandíbula se contrai
o celulartoca (pausa)
eu não vou atender essa merda. sabe por que? (pausa) sabe por que? (pausa) eu tava cagando e segurando o celular a merdinha tocou e eu levei um cagasso e ele foi cair direto na patente. patente é privada, é vaso, ele caiu pelo meio das minhas bolotas direto na água que ja tava toda cagada. (pausa) ai que bosta, pegar ou não pegar a merdinha, não o merdão, o merdão tava ali vistoso olhando pro papai. pegar a merdinha de falar. (pausa) enfiou a mão na água suja da patente e recuperou o celular. (pausa) hoje é assim. ele toca do nada. no meio da noite e no trânsito. eu não atendo mais por que eu ja tentei atender e sabe quem falou comigo? sabe quem? (pausa)
o espírito do pantentão (pausa)
é verão (pausa)
a agua resfria o tanto de calor que faz aqui, ela escorre pelas minhas mãos miúdas e cai à toa na terra descalço sem camiseta embaixo da sombra de uma árvore que árvore dá aquelas frutinhas secas e amarelas? cinamomo, dizem que a frutinha é de veneno. a mãe e a avó estão dormindo. o avô capina o pátio como um jardim zen meio irritado mas aceitando silencioso o divertimento lodoso do neto. o avô arrastando a vassoura de ferro , de boné de borracharia e camisa xadres aberta, fazendo sulcos na terra seca cheia de folhas caídas e pedrinhas do pátio. Pinhas dos pinheiros bolotinhas dos cinamomos organizando tudo tudo no lugar. e eu enfiando minhas mãos na lama. cavando um buraco tosco e gostando de ver e tocar o barrinho liso friorento que se soltava em meio aos pedregulhos.
a lama fina por entre esses meus dedos de menino no marco da porta de entrada uma imagem de madeira e ferro de são jorge. por isso nunca entrou ninguém aqui. dizia o velhoavô sobre a velhacasa de madeiramarela com contornosjanelaseportasmarrons. a casa de pau. (pausa)
diferente do apartamento onde ele ficava resguardado de qualquer mundo durante a semana alimentado pela tv e uns terrores noturnos. sendo levado e trazido para as barrigas de intituições. a casa a escola casescola sempre e sempre até que as vezes dava vontade de chorar (pausa)
eu chorava muito triste muito triste essa manhã eu não quero ir pra escola. (pausa)
mas a casa de pau era cercada por árvores e barro. e um lagarto gordo que vivia debaixo dela, saindo as vezes com o menino para tomar sol entre aquelas infidáveis ferramentas e sucatas que os avós juntavam a anos casa cercada de outras casinhas todas de pau um beco sem saída para os carros mas livre para atravessar pro lado do tambo quando quisesse. bastava se agaxar ou pular os arames farpados. (pausa)
eu nunca ia lá. tem vacas soltas. tem cahorro. eu tenho medo. o tambo tem cabeças de cavalo de pedra grudadas na arcadas de tijolo. eu tenho medo de cachorrodevacaedecavalo. (pausa)
uma vez toquei num cavalo e me impressionei de como era quente.(pausa)
- vô eu tava pensando já que tu não usa mais a casa, se tu pudesse me alugar me dar me emprestar qualquercoisaeu te pago um aluguel simbólicoeu pago a águaaluzeainternet eu pago o que for preciso eu pago eu pagoeu ainda tenho alguma grana guardada no banco eu pago. (pausa)deixar eu moraraqui por um tempo.(pausa)
e sentiu a presença escorregadia de um fantasma na casa. uma sombra vaga as sombras não tem sexo uma sombra vibrando transparente e friorenta pelos cômodos da casa aquela presença que era sempre sentida era sentida em qualquer casa onde ele estivesse toda casa assombrada. (pausa)
causava medo na hora do lobo que todo mundo está dormindo menos eu na hora daquele passarinho que pia engraçado um galo que canta gago um galo morrendo o fantasma do galo. (pausa)
lembrou-se da entrada protegida por são jorge e a sinaleira fechou. porra. (pausa)
pra onde ir a esta hora? (pausa) quem sabe algum sexo fácil algumas doses de qualquer coisa que o deixasse louco ele estava muito longe tempoespaço daquela casa amareladepau e daquele garoto. (pausa)
ele pensou.(pausa)
sou eu que aterrorizava aquele menino(pausa)
sou eu o fantasmanavegante daquele menino a sua assombração venho desses FLUXOS DE TRANSITO BARULHENTO NAS NOITES CHUVOSAS DE RUSH. (voz decrescendo) luzescruzantesbrancasamarelasvermelhas
buzinaços
a mandíbula se contrai
o celulartoca
(quase em silêncio)
eu não vou atender não vou eu preciso encontrar algum lugar pra onde ir.
Eu não vou atender Pode ser alguém pode ser alguém eu
Eu não vou atender eu
(luz diminui, voz cessa)
2
(o palco ainda escuro. pino de luz mais uma vez revela um homem de cabeça baixa. subitamente levanta o olhar e encara a platéia frente a frente. fala rapidamente, entrecortando silêncio e escuridão)
o celular toca e eu atendo. (pausa)
vou enfrentar essa porra de frente (pausa)
o espírito da merda, o espírito do patentão. (pausa)
como se eu pudesse optar em enfrentar ou não essa avalanche cheia de detritos que se tornou a minha vida. como se eu tivesse opção. como se eu tivesse um cardápio engordurado de mac donalds nas mãos e pudesse dizer, número um, número um! e tudo ficasse gostoso e com molho especial. (pausa)
não(pausa)
eu sabia que quem ia me atender era o peidolho grunindo visceral, vindo sei lá de onde, o ronco dos antepassados do meu intestino. (pausa)
essa breve ilusão de escolha me fez pelo menos ter alguns segundos de delírio onde minha moral subitamente estava um milímetro menos encardidada do que está. e seremos honestos tão somente : ela está bem, mas bem, bem encardida. (pausa)
o celular toca e eu atendo mecanicamente: número um! número um!(pausa)
o celular toca e eu atendo esperando mas não era o peido nem a merda. atendo e já não estou mais ali. naquele trânsito congelante naquela noite fria de rush. atendo e uma suave voz eletrônica já vai me dizendo "você deve!" isso eu já sei. sengundo a bíliblia neguinho já nasce fodido, devendo o cu e as pregas para essa boneca deus. a boneca com o cofre mais cheio de nada desse mundo. a boneca banco de almas a barriguda maior. (pausa)
a voz eletrônica só me fala "que a conta x foi descontada no mês y que a o mês y eu tive um desconto da dívida do mês w que n mês w se somou os juros por eu não ter pago o mês z a conta z foi descontada dos dias em que estive acordado dormindo por ae, fazendo coisas sem pensar como um zumbi como num trânsito onde os carros simplesmente decidiram parar para sempre, e os homens correm uns atrás dos outros com fome com ódio com o amor em farrapos doentes de tanto cotidiano , que no ano tal eu gastei mais que devia e fiz mais do que devia e que enchi o saco de muita gente e que fui grosso e desleal, que menti e traí e fui tão péssimo no amor usando meu parceiro como embalagem de porra e que tenho 12 pecados capitais e seus reversos e sujeiras tão entranhadas na alma que nem negociando toda essa dívida com a eternidade, nem que eu sacasse todo meu dinheiro do banco, nem que eu ajoelhasse no milho, não, eu jamais teria meu nome fora do Cerasa existencial. (pausa)
e ali estava eu com o cu na mão e no volante e o celular na outra e o cigarro e a vodca e o sei lá mais o que unhas roídas e ...
as gotas de chuva foram parando lentaaaamennnteee no ar...
a pasinha que limpa o para-brisa o para-chuva o para-something parando lentamente no ar. a chuva estática como num arranjo lindo de shopping center, cheio de luzinhas e emoção os sons das buzinas engrossando lentos arrotos de sapos de outras dimensões.
finalmente as luzes apagaram, os sons silenciaram.
nenhuma cor imagem ou som.
nenhuma sensação corporal. nem meus dedos doídos pelo frio e pelas mordidas incessantes nas unhas.
nada que eu pudesse perceber por qualquer sentido nem meu carro nem a rua nem meu corpo.
nem mais a voz da telemoça
nem o espírito do patentão do zé ninguém de deus da boneca cósmica ninguém
naquela hora congelada ninguém nem nada, nem o frio agora distante e memorioso, ninguém. (pausa)
subito meus olhos são lançados a uma altura inimaginável e me vejo sobre uma superfície reta lisa negra de limites que se perdem num horizonte que mal se define ao longe uma linha imaginada no limite da visão.
a imagem se forma aos poucos (pausa)
vou botar alguma ordem nesse galinheiro! não é por que eu atendi a porra do telefone e tudo ficou preto que eu devo perder o controle. o controle o. o controle sobre mim mesmo o. sobre mim sobre o que eu falo sobre eu. sobre eu mesmo sob controle. (pausa)
vamos tentar ser racionais, calmos e racionais (pausa)
vamos falar de medidas... de tamanhos.... de materiais.
vou ser um bom professor. eu juro! já erguendo a régua na mão.
(pausa)
imaginem um círculo! assim! uma circuferência! assim, gostoso! uma laranja! assim, assim! cortada ao meio! assim! agora insiram dentro dessa circuferência, dentro da laranjinha da imaginação um quadrado! assim, bonito! todos os ângulos, as esquininhas do quadrado, que são 4, tocam a circuferência! assim! agora imaginem que essa laranja não é uma laranja, mas é o planeta terra! ahh tu não consegue é seu capenga! imagina uma lanranja do tamanho exato pra ser morida pela bonacona deus, o planeta! esse enorme plano sobre o qual eu flutuo tem o tamanho de um quadrado inserido na circuferência da terra inteira, desse planeta. simples né? sacou?
(pausa)
eu estava sobre ele onde o cima e o baixo se tocam no horizonte que imagino longe, dentro do planeta. nada de fogo lava vulcões e gente cagada chorando peidando e rangendo os dentes. Não. Dante era apenas um velho fetichista qque batia muita punheta inventando safadesas onanistas num inferno que mais parece a disney administrada pelo zé do caixão. (pausa)
dentro da terra, pessoal, não tem nada. (pausa)
é uma superfície negra, enooooooorme e vazia. (pausa)
eu eu estava lá. (pausa)
uma vertigem faz meu estômago querer pular pela boca, viva! viva! eu estou SENTINDO alguma coisa, eu estou caiiiiindoooooooo! VIVA! pra baixo pra cima eu caio lindo e em alta velocidade,até que percebo que essa superfície não é lisa não, é cheio de ranhuras é um microchip gigante, um macrochip todo negro e sulcado matematicamente, o grande quadradão do centro da terra, dividido em 4 quadrados menores e cada um se dividindo em quatro quadrados ainda menores e cada um dos menorzinhos em quadradinhos pecorruchos ainda menores e os pecorruchinhos em mínimos nenês de quadrados menores e e menores e mais e mais e mais e mais até chegar ao tamanho daqueles embriões que nem nasceram e ja viream morar aqui. ali. lá. aqui! (pausa)
As linhas, vou percebendo enquanto caio, formam avenidas principais que cruzam bem no meio. uma cruz, no meio uma encruzilhada, uma cruz. (pausa)
ou um xis, dependendo do ponto de vista. (pausa) sugestivo, muito sugestivo, mas eu nem sou católico. (pausa)
eu desço até tocar meus pés no centro do quadradão. na encruzilhada central. não pensem que ali existem muros e que eu estava num labirindo nem nada. não. quando toquei meus pés no chão percebi que as ranhuras que via de cima era apenas divisões entre blocos de granito negro ou mármore negro, muito baixos, como caixões organizados ao infinito, baixinhos e retangulares de... aquilo me parecia um mármore negro ou granito ou mármore mesmo mas sem aqueles rajadinhos no meio, pura pedra preta e lapidada, igual ao chão, tudo do mesmo material, um megalochip negro e gigantesco.
(pausa)
ai que bosta! só me faltava essa! to fodido! to doente da cabeça! comi merda me internaram me doparam e não me avisaram. melhor, joguei pedra na cruz, matei meu pai e comi minha mãe como todo bom otário criado num divã. analisado e catalogado. mórbido. perverso e infatil. não não. simplesmente atendi o telefone no trânsito louco e vim dar nesse lugar. (pausa)
uma paisagem existencial cemiterial de escala cósmica. um labirindo de vias retas. onde ninguém escapa por que não há ninguém. é um monumento, sei lá. mas eu posso sair. se eu me lembro bem, seguindo qaulquer uma dessas 4 avenidas que se perdem no infinito um dia eu chegarei nas bordas...um dia saio.
e fui andando por entre as... lápides? pareciam lápides, não lápides, pedras de túmulos, não sei, sem isncrições sem nada, todas iguais, baixas negras espaçadas matematicamnete até perder de vista.
(pausa)
caminhar rápido e não olhar pros lados é o que eu tinha aprendido em uma vida inteira morando na selva da cidade, se corrrer o bicho pega e se ficar o bixo come. como meu pinto naquela de chuva torrencial tinha congelado e regredido a uma proto-vagina e a premissa de uma boa foda só me remetia a lugares escuros onde pessoas imundas grudam-se como sanguessugas vigolentas eu resolvi nem correr nem correr nem andar mas seguir em frente sem olhar e sem pensar só seguir em frente. (pausa)
to cansado. vou deitar numa dessa caminhas. elas tem um tamanho perfeito pra deitar. deitar fechar os olhos e descançar. são caminhas de pedra distribuídas ao infinito, aqui deve ser o dark room da existência, o ponto final de qualquer viajante.
(pausa)
foi quando percebi que em cada retangulinho nascia uma caveira e logo toda paisagem estava tomada de ossos, deu pra perceber o drama. o cenário desolado agora parecia mais o clipe do triller, caveiras de todas os tamnahos cores e formatos vinham em minha direção emargindo das tumbas, vindo em minha direção. sai correndo e elas vieram pra cima com tudo, saltos longos, dentres pontiagudos olhos cavados fundo, as falanges expostas, punhalaço no peito. escuridão.
(pausa)
um cheiro de cachorro molhado, abro os olhos frente a um colosso orgânico que respira e se contrai , pela de feltro cinza desses de embalar mendigos peludo e pulsante. essa meus senhores é a vênus do undergroud. ela ta parindo um filho. a vênus nem tem rosto mas tem barrigas e tetas e pêlos. ela come lentinhas e aumenta de tamanho. a vênuasalimenta seu feto morto ela cresce seu bebê ela vai parir pra mim. a buça negra vai se abrindo e deixa antever o cabeção.
"alô alô, você deve! DEVE!"
(pausa)
o celular toca
a mandíbula se contrai.
a chuva cai infernalmente nessas noites nojentas e chuvosas da hora do rush.
piso no acelerador mas o trânsito está parado.
o celular toca
eu não voue atender essa porra não.
eu não vou atender pode ser algúem indo pra algum lugar eu não vou não.
o celular toca as luzinhas brancasamarelasvermelhasasbuzinas
não vou atender não
não vou atender eu
(luz baixa, escuridão)
é inverno. (pausa) ele está congelando.(pausa)
ESSES FLUXOS DE TRANSITO BARULHENTO NAS NOITES CHUVOSAS DE RUSH. luzescruzantesbrancasamarelasvermelhas
buzinaços
a mandíbula se contrai
o celulartoca (pausa)
eu não sei onde vou morar. (pausa) ele pensou sem atender o telefone.
(pausa) eu não sei pra onde eu vou nesse exato momento. Só sei que vou. Eu tenho somente ido, sem saber pra onde. Meus pés afundados no acelerador. Mas nessa merda de transito nada parece realmente se mover.(pausa)
ele estava em busca de algum lugar pra ficar alguma coisa na qual se agarrar alguém pra conversar foder casar qualquer coisa uma casa um corpo um quarto de hotel um homem um irmão qualquer pessoa alguém. (pausa)
nem rádio tem pra tocar nessa merda!(pausa) roubaram meu rádio. Meu mp3 tá sem bateria. Que merda eu ter logo comprado uma bostinha dessas que ainda usa pilhas pilhas pilhas. Me roubaram vendendo essa merda. Me roubaram o rádio. Me roubam todo dia. Todo dia sendo roubado. Vontade de enfiar a cara e o carro no primeiro poste. (pausa) mas nada anda por aqui. (pausa)
os dedos dele estavam congelando, o dos pés, molhados até os ossos os das mãos enrijecidos como garras retorcidas no volante. o dinheiro ele sabia que só tinha garantido até daqui o próximo (pausa) a próxima (pausa) esquina (pausa) do próximo (pausa) ano (pausa) do próximo mês até o próximo dia hora minuto e segundo. o dinheiro corre.(pausa) o dinheiro escorre e corre solto, o dinheiro dinheiro (pausa) era preciso muito dinheiro e paciência para sobreviver nesse caos mediado pelo consumo.(pausa) sobreviver aqui sobreviver, não viver, sobreviver. Só, sobreviver, sobreviver só. (pausa)
se ao menos que ele fosse pra bem longe.onde o olhar do outro não o tocasse não. Onde o desejo não desejasse. (pausa)
ai que vontade do esse outro do olhar do toque desse outro figura impossível sem dinheiro meu coração acelera motor cheio de faíscas e barulho. Não to com tesão eu to com, com essa velocidade que me come por dentro, E ESSA PORRA DE TRANSITO NÃO ANDA!
(pausa)esse lugar onde todo fim de mês não chegassem aquelas continhas todas nojentas onde ele parasse de perder tempo discando inúmeras vezes para serviços de tele qualquer coisa que o devoravam pelos ossos entrando em filas de bancos nos quartos de motel entristecido pelas pelas ruas imundas dando adeus caminhando entrando e saindo do carro encharcado em alta velocidade sempre. (pausa)
a chuva cai pesada lá fora o (pausa) qual é o nome daquela pazinha de borracha que espalha vaievem vaievem limpando quase inutilmente tentando afastar a aguaceiro que cai no vidro? (pausa) o parabrisa para chuva para-something o para brisa é o vidro mesmo e a pazinha? ahh a pazinha maldita não dá nãooo dá conta de tanta água que cai e tanta buzina na cabeça e tanta não saber onde chegar. e ele sua ele sua vertiginoso. sua frio em meio a ESSES FLUXOS DE TRANSITO BARULHENTO NAS NOITES CHUVOSAS E FRIAS!!! E FRIAS DE RUSH luzescruzantesbrancasamarelasvermelhas
buzinaços
a mandíbula se contrai
o celulartoca (pausa)
eu não vou atender essa merda. sabe por que? (pausa) sabe por que? (pausa) eu tava cagando e segurando o celular a merdinha tocou e eu levei um cagasso e ele foi cair direto na patente. patente é privada, é vaso, ele caiu pelo meio das minhas bolotas direto na água que ja tava toda cagada. (pausa) ai que bosta, pegar ou não pegar a merdinha, não o merdão, o merdão tava ali vistoso olhando pro papai. pegar a merdinha de falar. (pausa) enfiou a mão na água suja da patente e recuperou o celular. (pausa) hoje é assim. ele toca do nada. no meio da noite e no trânsito. eu não atendo mais por que eu ja tentei atender e sabe quem falou comigo? sabe quem? (pausa)
o espírito do pantentão (pausa)
é verão (pausa)
a agua resfria o tanto de calor que faz aqui, ela escorre pelas minhas mãos miúdas e cai à toa na terra descalço sem camiseta embaixo da sombra de uma árvore que árvore dá aquelas frutinhas secas e amarelas? cinamomo, dizem que a frutinha é de veneno. a mãe e a avó estão dormindo. o avô capina o pátio como um jardim zen meio irritado mas aceitando silencioso o divertimento lodoso do neto. o avô arrastando a vassoura de ferro , de boné de borracharia e camisa xadres aberta, fazendo sulcos na terra seca cheia de folhas caídas e pedrinhas do pátio. Pinhas dos pinheiros bolotinhas dos cinamomos organizando tudo tudo no lugar. e eu enfiando minhas mãos na lama. cavando um buraco tosco e gostando de ver e tocar o barrinho liso friorento que se soltava em meio aos pedregulhos.
a lama fina por entre esses meus dedos de menino no marco da porta de entrada uma imagem de madeira e ferro de são jorge. por isso nunca entrou ninguém aqui. dizia o velhoavô sobre a velhacasa de madeiramarela com contornosjanelaseportasmarrons. a casa de pau. (pausa)
diferente do apartamento onde ele ficava resguardado de qualquer mundo durante a semana alimentado pela tv e uns terrores noturnos. sendo levado e trazido para as barrigas de intituições. a casa a escola casescola sempre e sempre até que as vezes dava vontade de chorar (pausa)
eu chorava muito triste muito triste essa manhã eu não quero ir pra escola. (pausa)
mas a casa de pau era cercada por árvores e barro. e um lagarto gordo que vivia debaixo dela, saindo as vezes com o menino para tomar sol entre aquelas infidáveis ferramentas e sucatas que os avós juntavam a anos casa cercada de outras casinhas todas de pau um beco sem saída para os carros mas livre para atravessar pro lado do tambo quando quisesse. bastava se agaxar ou pular os arames farpados. (pausa)
eu nunca ia lá. tem vacas soltas. tem cahorro. eu tenho medo. o tambo tem cabeças de cavalo de pedra grudadas na arcadas de tijolo. eu tenho medo de cachorrodevacaedecavalo. (pausa)
uma vez toquei num cavalo e me impressionei de como era quente.(pausa)
- vô eu tava pensando já que tu não usa mais a casa, se tu pudesse me alugar me dar me emprestar qualquercoisaeu te pago um aluguel simbólicoeu pago a águaaluzeainternet eu pago o que for preciso eu pago eu pagoeu ainda tenho alguma grana guardada no banco eu pago. (pausa)deixar eu moraraqui por um tempo.(pausa)
e sentiu a presença escorregadia de um fantasma na casa. uma sombra vaga as sombras não tem sexo uma sombra vibrando transparente e friorenta pelos cômodos da casa aquela presença que era sempre sentida era sentida em qualquer casa onde ele estivesse toda casa assombrada. (pausa)
causava medo na hora do lobo que todo mundo está dormindo menos eu na hora daquele passarinho que pia engraçado um galo que canta gago um galo morrendo o fantasma do galo. (pausa)
lembrou-se da entrada protegida por são jorge e a sinaleira fechou. porra. (pausa)
pra onde ir a esta hora? (pausa) quem sabe algum sexo fácil algumas doses de qualquer coisa que o deixasse louco ele estava muito longe tempoespaço daquela casa amareladepau e daquele garoto. (pausa)
ele pensou.(pausa)
sou eu que aterrorizava aquele menino(pausa)
sou eu o fantasmanavegante daquele menino a sua assombração venho desses FLUXOS DE TRANSITO BARULHENTO NAS NOITES CHUVOSAS DE RUSH. (voz decrescendo) luzescruzantesbrancasamarelasvermelhas
buzinaços
a mandíbula se contrai
o celulartoca
(quase em silêncio)
eu não vou atender não vou eu preciso encontrar algum lugar pra onde ir.
Eu não vou atender Pode ser alguém pode ser alguém eu
Eu não vou atender eu
(luz diminui, voz cessa)
ainda no trânsito.
2
(o palco ainda escuro. pino de luz mais uma vez revela um homem de cabeça baixa. subitamente levanta o olhar e encara a platéia frente a frente. fala rapidamente, entrecortando silêncio e escuridão)
o celular toca e eu atendo. (pausa)
vou enfrentar essa porra de frente (pausa)
o espírito da merda, o espírito do patentão. (pausa)
como se eu pudesse optar em enfrentar ou não essa avalanche cheia de detritos que se tornou a minha vida. como se eu tivesse opção. como se eu tivesse um cardápio engordurado de mac donalds nas mãos e pudesse dizer, número um, número um! e tudo ficasse gostoso e com molho especial. (pausa)
não(pausa)
eu sabia que quem ia me atender era o peidolho grunindo visceral, vindo sei lá de onde, o ronco dos antepassados do meu intestino. (pausa)
essa breve ilusão de escolha me fez pelo menos ter alguns segundos de delírio onde minha moral subitamente estava um milímetro menos encardidada do que está. e seremos honestos tão somente : ela está bem, mas bem, bem encardida. (pausa)
o celular toca e eu atendo mecanicamente: número um! número um!(pausa)
o celular toca e eu atendo esperando mas não era o peido nem a merda. atendo e já não estou mais ali. naquele trânsito congelante naquela noite fria de rush. atendo e uma suave voz eletrônica já vai me dizendo "você deve!" isso eu já sei. sengundo a bíliblia neguinho já nasce fodido, devendo o cu e as pregas para essa boneca deus. a boneca com o cofre mais cheio de nada desse mundo. a boneca banco de almas a barriguda maior. (pausa)
a voz eletrônica só me fala "que a conta x foi descontada no mês y que a o mês y eu tive um desconto da dívida do mês w que n mês w se somou os juros por eu não ter pago o mês z a conta z foi descontada dos dias em que estive acordado dormindo por ae, fazendo coisas sem pensar como um zumbi como num trânsito onde os carros simplesmente decidiram parar para sempre, e os homens correm uns atrás dos outros com fome com ódio com o amor em farrapos doentes de tanto cotidiano , que no ano tal eu gastei mais que devia e fiz mais do que devia e que enchi o saco de muita gente e que fui grosso e desleal, que menti e traí e fui tão péssimo no amor usando meu parceiro como embalagem de porra e que tenho 12 pecados capitais e seus reversos e sujeiras tão entranhadas na alma que nem negociando toda essa dívida com a eternidade, nem que eu sacasse todo meu dinheiro do banco, nem que eu ajoelhasse no milho, não, eu jamais teria meu nome fora do Cerasa existencial. (pausa)
e ali estava eu com o cu na mão e no volante e o celular na outra e o cigarro e a vodca e o sei lá mais o que unhas roídas e ...
as gotas de chuva foram parando lentaaaamennnteee no ar...
a pasinha que limpa o para-brisa o para-chuva o para-something parando lentamente no ar. a chuva estática como num arranjo lindo de shopping center, cheio de luzinhas e emoção os sons das buzinas engrossando lentos arrotos de sapos de outras dimensões.
finalmente as luzes apagaram, os sons silenciaram.
nenhuma cor imagem ou som.
nenhuma sensação corporal. nem meus dedos doídos pelo frio e pelas mordidas incessantes nas unhas.
nada que eu pudesse perceber por qualquer sentido nem meu carro nem a rua nem meu corpo.
nem mais a voz da telemoça
nem o espírito do patentão do zé ninguém de deus da boneca cósmica ninguém
naquela hora congelada ninguém nem nada, nem o frio agora distante e memorioso, ninguém. (pausa)
subito meus olhos são lançados a uma altura inimaginável e me vejo sobre uma superfície reta lisa negra de limites que se perdem num horizonte que mal se define ao longe uma linha imaginada no limite da visão.
a imagem se forma aos poucos (pausa)
vou botar alguma ordem nesse galinheiro! não é por que eu atendi a porra do telefone e tudo ficou preto que eu devo perder o controle. o controle o. o controle sobre mim mesmo o. sobre mim sobre o que eu falo sobre eu. sobre eu mesmo sob controle. (pausa)
vamos tentar ser racionais, calmos e racionais (pausa)
vamos falar de medidas... de tamanhos.... de materiais.
vou ser um bom professor. eu juro! já erguendo a régua na mão.
(pausa)
imaginem um círculo! assim! uma circuferência! assim, gostoso! uma laranja! assim, assim! cortada ao meio! assim! agora insiram dentro dessa circuferência, dentro da laranjinha da imaginação um quadrado! assim, bonito! todos os ângulos, as esquininhas do quadrado, que são 4, tocam a circuferência! assim! agora imaginem que essa laranja não é uma laranja, mas é o planeta terra! ahh tu não consegue é seu capenga! imagina uma lanranja do tamanho exato pra ser morida pela bonacona deus, o planeta! esse enorme plano sobre o qual eu flutuo tem o tamanho de um quadrado inserido na circuferência da terra inteira, desse planeta. simples né? sacou?
(pausa)
eu estava sobre ele onde o cima e o baixo se tocam no horizonte que imagino longe, dentro do planeta. nada de fogo lava vulcões e gente cagada chorando peidando e rangendo os dentes. Não. Dante era apenas um velho fetichista qque batia muita punheta inventando safadesas onanistas num inferno que mais parece a disney administrada pelo zé do caixão. (pausa)
dentro da terra, pessoal, não tem nada. (pausa)
é uma superfície negra, enooooooorme e vazia. (pausa)
eu eu estava lá. (pausa)
uma vertigem faz meu estômago querer pular pela boca, viva! viva! eu estou SENTINDO alguma coisa, eu estou caiiiiindoooooooo! VIVA! pra baixo pra cima eu caio lindo e em alta velocidade,até que percebo que essa superfície não é lisa não, é cheio de ranhuras é um microchip gigante, um macrochip todo negro e sulcado matematicamente, o grande quadradão do centro da terra, dividido em 4 quadrados menores e cada um se dividindo em quatro quadrados ainda menores e cada um dos menorzinhos em quadradinhos pecorruchos ainda menores e os pecorruchinhos em mínimos nenês de quadrados menores e e menores e mais e mais e mais e mais até chegar ao tamanho daqueles embriões que nem nasceram e ja viream morar aqui. ali. lá. aqui! (pausa)
As linhas, vou percebendo enquanto caio, formam avenidas principais que cruzam bem no meio. uma cruz, no meio uma encruzilhada, uma cruz. (pausa)
ou um xis, dependendo do ponto de vista. (pausa) sugestivo, muito sugestivo, mas eu nem sou católico. (pausa)
eu desço até tocar meus pés no centro do quadradão. na encruzilhada central. não pensem que ali existem muros e que eu estava num labirindo nem nada. não. quando toquei meus pés no chão percebi que as ranhuras que via de cima era apenas divisões entre blocos de granito negro ou mármore negro, muito baixos, como caixões organizados ao infinito, baixinhos e retangulares de... aquilo me parecia um mármore negro ou granito ou mármore mesmo mas sem aqueles rajadinhos no meio, pura pedra preta e lapidada, igual ao chão, tudo do mesmo material, um megalochip negro e gigantesco.
(pausa)
ai que bosta! só me faltava essa! to fodido! to doente da cabeça! comi merda me internaram me doparam e não me avisaram. melhor, joguei pedra na cruz, matei meu pai e comi minha mãe como todo bom otário criado num divã. analisado e catalogado. mórbido. perverso e infatil. não não. simplesmente atendi o telefone no trânsito louco e vim dar nesse lugar. (pausa)
uma paisagem existencial cemiterial de escala cósmica. um labirindo de vias retas. onde ninguém escapa por que não há ninguém. é um monumento, sei lá. mas eu posso sair. se eu me lembro bem, seguindo qaulquer uma dessas 4 avenidas que se perdem no infinito um dia eu chegarei nas bordas...um dia saio.
e fui andando por entre as... lápides? pareciam lápides, não lápides, pedras de túmulos, não sei, sem isncrições sem nada, todas iguais, baixas negras espaçadas matematicamnete até perder de vista.
(pausa)
caminhar rápido e não olhar pros lados é o que eu tinha aprendido em uma vida inteira morando na selva da cidade, se corrrer o bicho pega e se ficar o bixo come. como meu pinto naquela de chuva torrencial tinha congelado e regredido a uma proto-vagina e a premissa de uma boa foda só me remetia a lugares escuros onde pessoas imundas grudam-se como sanguessugas vigolentas eu resolvi nem correr nem correr nem andar mas seguir em frente sem olhar e sem pensar só seguir em frente. (pausa)
to cansado. vou deitar numa dessa caminhas. elas tem um tamanho perfeito pra deitar. deitar fechar os olhos e descançar. são caminhas de pedra distribuídas ao infinito, aqui deve ser o dark room da existência, o ponto final de qualquer viajante.
(pausa)
foi quando percebi que em cada retangulinho nascia uma caveira e logo toda paisagem estava tomada de ossos, deu pra perceber o drama. o cenário desolado agora parecia mais o clipe do triller, caveiras de todas os tamnahos cores e formatos vinham em minha direção emargindo das tumbas, vindo em minha direção. sai correndo e elas vieram pra cima com tudo, saltos longos, dentres pontiagudos olhos cavados fundo, as falanges expostas, punhalaço no peito. escuridão.
(pausa)
um cheiro de cachorro molhado, abro os olhos frente a um colosso orgânico que respira e se contrai , pela de feltro cinza desses de embalar mendigos peludo e pulsante. essa meus senhores é a vênus do undergroud. ela ta parindo um filho. a vênus nem tem rosto mas tem barrigas e tetas e pêlos. ela come lentinhas e aumenta de tamanho. a vênuasalimenta seu feto morto ela cresce seu bebê ela vai parir pra mim. a buça negra vai se abrindo e deixa antever o cabeção.
"alô alô, você deve! DEVE!"
(pausa)
o celular toca
a mandíbula se contrai.
a chuva cai infernalmente nessas noites nojentas e chuvosas da hora do rush.
piso no acelerador mas o trânsito está parado.
o celular toca
eu não voue atender essa porra não.
eu não vou atender pode ser algúem indo pra algum lugar eu não vou não.
o celular toca as luzinhas brancasamarelasvermelhasasbuzinas
não vou atender não
não vou atender eu
(luz baixa, escuridão)
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Um aquário despedaçado.
Dia 1
chegar em casa
fixou seu olhar
não havia modo de tirar Teresa da frente daquele aquário
Sentei ao seu lado carregado por uma espessa camada de dia-a-dia colhida lá fora
A gravata me apertava a palavra que insistia em desistir na minha garganta.
Desfiz o nó, o aperto restou
Beijei a testa de Teresa
Olhei para nada encontrar no aquário
Chamei Teresa pelo nome três vezes
Fui para o banho fazer-me água para que Teresa me olhasse
dia 2
trouxe flores
uma tentativa de suicídio
Nem eu sabia como o olhar de Teresa ainda não tinha se afogado naquele aquário
Coloquei as rosas sobre as pernas daquela estátua de silêncio e silêncio
Esperei
Desfiz-me num pranto leve e amortecido pela fumaça de um cigarro
pedi que a empregada dissesse algo
Deixei a empregada falando sozinha
Fingi
Fingi
Fingi
Jantei sozinho
a voz eletrônica da televisão desfez tudo o que ainda me era humano
meu corpo sentia saudades do dela
3 dia
Seu peito respirava – que não era mais ela, mas o peito dela
o olhar de medusa de minha esposa
os peixes que petrificavam Teresa
Passei a mão pelos seus cabelos de pedra
Quis beijá-la, a palavra aprisionada na minha garganta não permitiu
o escravo débil e estúpido de uma mulher de pedra
A empregada, com o espanador, limpou
encontrou o meu olhar reprovador
Pedi que se retirasse de minha casa e nunca, nunca mais voltasse.
no 4 dia...
cheguei em casa acompanhado de Paula
não gostou do aquário lembra coisas da minha mãe
não deu por conta que Teresa se fazia pedra ali, no meio da sala
Perguntei se ela queria tomar algo, pediu-me um copo de suco de laranja
tomei um copo de uísque
caí no sofá e adormeci
Acordei com Paula a me beijar o pescoço e me dizer coisas de mulher vivida no ouvido
Fiz de Paula uma Teresa
Teresa adquiria já uma cor azulada fingida de cinza, a cor de um barco cujos marinheiros já tenham se calado
adormeci o resto de noite e preparei-me para ser um resto de homem no dia inteiro
5 dia
Na manhã seguinte, deixei Paula dormindo e fui trabalhar
Paula me disse já ter arrumado um pouco as coisas
Vi ao redor do aquário um punhado de peixes mortos, Paula não teve coragem de tirá-los dali
Fui tomar banho
vi que ela estava cozinhando algo
batia com força em dois pedaços grandes de bife
Assisti ao programa de esportes tomando mais um copo de uísque, meu terceiro no dia.
Jantei solitário, novamente eu e Paula
Cuidei se as portas estavam fechadas
tranquei as janelas
transei com Paula na mesa da cozinha
dei comida para o cachorro na rua
fechei a torneira do banheiro que insistia em pingar
Sonhei com peixes e com um mar bravo
sonhei com a palavra que se desfazia em meu de dentro
Quando acordei no dia seguinte, não lembrava nem da palavra nem do mar, mas tinha um cheiro de maresia nas palmas das mãos.
percebi que ela tinha esquecido o martelo de bife em cima da mesa
Não me dei ao trabalho de guardar
dia 6
Voltei do trabalho cansado
eu queria aproveitar a noite
Paula me esperava com duas velas acesas sobre a mesa da cozinha, dois filés ao molho madeira e uma garrafa de vinho tinto aberta
Beijei-a como nunca
cheirei seu cabelo
mordi de leve o seu lábio inferior
Ela serviu-me de vinho
Comi com a tranqüilidade da resignação, os braços frouxos de tanto esquecer
Paula contou-me do seu dia de mulher de casa
de assistir televisão
de ler um romance barato
de conversar com os vizinhos
de pensar em ter filhos
Paula tinha arrumado algumas coisas
A nova empregada varreu para fora de casa os estilhaços de Teresa
chegar em casa
fixou seu olhar
não havia modo de tirar Teresa da frente daquele aquário
Sentei ao seu lado carregado por uma espessa camada de dia-a-dia colhida lá fora
A gravata me apertava a palavra que insistia em desistir na minha garganta.
Desfiz o nó, o aperto restou
Beijei a testa de Teresa
Olhei para nada encontrar no aquário
Chamei Teresa pelo nome três vezes
Fui para o banho fazer-me água para que Teresa me olhasse
dia 2
trouxe flores
uma tentativa de suicídio
Nem eu sabia como o olhar de Teresa ainda não tinha se afogado naquele aquário
Coloquei as rosas sobre as pernas daquela estátua de silêncio e silêncio
Esperei
Desfiz-me num pranto leve e amortecido pela fumaça de um cigarro
pedi que a empregada dissesse algo
Deixei a empregada falando sozinha
Fingi
Fingi
Fingi
Jantei sozinho
a voz eletrônica da televisão desfez tudo o que ainda me era humano
meu corpo sentia saudades do dela
3 dia
Seu peito respirava – que não era mais ela, mas o peito dela
o olhar de medusa de minha esposa
os peixes que petrificavam Teresa
Passei a mão pelos seus cabelos de pedra
Quis beijá-la, a palavra aprisionada na minha garganta não permitiu
o escravo débil e estúpido de uma mulher de pedra
A empregada, com o espanador, limpou
encontrou o meu olhar reprovador
Pedi que se retirasse de minha casa e nunca, nunca mais voltasse.
no 4 dia...
cheguei em casa acompanhado de Paula
não gostou do aquário lembra coisas da minha mãe
não deu por conta que Teresa se fazia pedra ali, no meio da sala
Perguntei se ela queria tomar algo, pediu-me um copo de suco de laranja
tomei um copo de uísque
caí no sofá e adormeci
Acordei com Paula a me beijar o pescoço e me dizer coisas de mulher vivida no ouvido
Fiz de Paula uma Teresa
Teresa adquiria já uma cor azulada fingida de cinza, a cor de um barco cujos marinheiros já tenham se calado
adormeci o resto de noite e preparei-me para ser um resto de homem no dia inteiro
5 dia
Na manhã seguinte, deixei Paula dormindo e fui trabalhar
Paula me disse já ter arrumado um pouco as coisas
Vi ao redor do aquário um punhado de peixes mortos, Paula não teve coragem de tirá-los dali
Fui tomar banho
vi que ela estava cozinhando algo
batia com força em dois pedaços grandes de bife
Assisti ao programa de esportes tomando mais um copo de uísque, meu terceiro no dia.
Jantei solitário, novamente eu e Paula
Cuidei se as portas estavam fechadas
tranquei as janelas
transei com Paula na mesa da cozinha
dei comida para o cachorro na rua
fechei a torneira do banheiro que insistia em pingar
Sonhei com peixes e com um mar bravo
sonhei com a palavra que se desfazia em meu de dentro
Quando acordei no dia seguinte, não lembrava nem da palavra nem do mar, mas tinha um cheiro de maresia nas palmas das mãos.
percebi que ela tinha esquecido o martelo de bife em cima da mesa
Não me dei ao trabalho de guardar
dia 6
Voltei do trabalho cansado
eu queria aproveitar a noite
Paula me esperava com duas velas acesas sobre a mesa da cozinha, dois filés ao molho madeira e uma garrafa de vinho tinto aberta
Beijei-a como nunca
cheirei seu cabelo
mordi de leve o seu lábio inferior
Ela serviu-me de vinho
Comi com a tranqüilidade da resignação, os braços frouxos de tanto esquecer
Paula contou-me do seu dia de mulher de casa
de assistir televisão
de ler um romance barato
de conversar com os vizinhos
de pensar em ter filhos
Paula tinha arrumado algumas coisas
A nova empregada varreu para fora de casa os estilhaços de Teresa
o conto de mattuella : magneto narrativo - lírico do projeto
| Teresa ainda olhava para o aquário |
| Ao chegar em casa , percebi que Teresa ainda olhava para o aquário. Pediu-me, de presente de aniversário, um aquário de peixes coloridos. Logo fixou seu olhar num peixe pequeno, talvez o menor, vermelho com algumas pintas em preto. Como que tingido. Desde então não havia modo de tirar Teresa da frente daquele aquário, seu presente. Ela ainda vestia o pijama azulado – puído nas pontas de tanto me desamar à noite -, os cabelos soltos sobre os ombros entristecidos. Os cabelos também de pontas puídas de tanto peixe a se fazer olhado. Sentei ao seu lado carregado por uma espessa camada de dia-a-dia colhida lá fora, na rua de um trabalho que me amedrontava. Dinheiro para Teresa, para dar presente à Teresa. A gravata me apertava a palavra que insistia em desistir na minha garganta. Desfiz o nó, o aperto restou, como uma cólera que não tem vez de sair. Beijei a testa de Teresa, meus lábios imundos de poluição e cansaço deitando no aroma de sabonete de minha esposa. Olhei para nada encontrar no aquário, apenas peixes. E o vermelho era o mais sem graça. Chamei Teresa pelo nome três vezes. A quarta tentativa perdeu-se numa mistura de tristeza e fim de dia. Fui para o banho fazer-me água para que Teresa me olhasse. Dormi sozinho. No dia seguinte , trouxe flores para Teresa. Três rosas vermelhas: tive o cuidado de tirar os espinhos. As pétalas amarronadas nas pontas delatavam uma tentativa de suicídio. Nem eu sabia como o olhar de Teresa ainda não tinha se afogado naquele aquário. Coloquei as rosas sobre as pernas daquela estátua de silêncio e silêncio. Esperei. Nem olhar, menos palavra. Desfiz-me num pranto leve e amortecido pela fumaça de um cigarro que eu tinha fumado ali fora. Que Teresa me odiava fumante, me odiava amante. Coisa a fazer não me passava pela cabeça, pedi que a empregada dissesse algo: “[ pela manhã vassoura pela casa, pela tarde tirar o pó dos móveis e à tardinha ver um pouquinho de novela que também não se é de ferro nem menos de aço, não é, doutor? ]” Deixei a empregada falando sozinha, fingi que a escutava. Fingi. Fingi que minha esposa olhava para mim e perguntava se eu queria suco ou leite. Fingi que tinha derramado um pouco de suco no chão, esperando que ela risse do meu modo desajeitado. Tirar o pó. De onde mesmo? Tirar o pó dos móveis. E minha esposa, imóvel? Jantei sozinho, olhando o jornal de três dias que ainda insistia sobre a mesa. Pensei chamar a empregada, desisti: a voz eletrônica da televisão desfez tudo o que ainda me era humano. Senti o perfume de Teresa, mas era só lembrança: meu corpo sentia saudades do dela. No terceiro dia, Teresa estava ainda mais quieta. Seu peito respirava – que não era mais ela, mas o peito dela – na lentidão cadenciada pelo mundo à sua volta. Os peixes, agora pareciam tantos, como se fossem multiplicando dentro do aquário. Eram muitos, demais, pequenos corpos se esfregando e se debatendo uns contra os outros em busca de. Em busca de quê? Do olhar de medusa de minha esposa? Ou os peixes que petrificavam Teresa? Passei a mão pelos seus cabelos de pedra. Em sua face, uma única lágrima dura e gelada tinha escorrido até quase chegar ao lábio. Quis beijá-la, a palavra aprisionada na minha garganta não permitiu. Eu era o escravo débil e estúpido de uma mulher de pedra. A empregada, com o espanador, limpou os vasos sobre a mesa, as cadeiras de madeira, a mesinha do aquário. Estava a meio movimento na direção de Teresa quando encontrou o meu olhar reprovador. Pedi que se retirasse de minha casa e nunca, nunca mais voltasse. “[ mas doutor, a senhora não volta mais pra essa vida, não. ]” Fiz um sorriso estilhaçado em meus lábios. No quarto dia , cheguei em casa acompanhado de Paula, uma antiga amiga. Paula não gostou do aquário, [ lembra coisas da minha mãe ], e quase não deu por conta que Teresa se fazia pedra ali, no meio da sala. Perguntei se ela queria tomar algo, pediu-me um copo de suco de laranja. Com muito gelo. Por minha vez, tomei um copo de uísque. Fiz-me amargo e silencioso, caí no sofá e adormeci o sono dos ingratos. Acordei com Paula a me beijar o pescoço e me dizer coisas de mulher vivida no ouvido. Fiz de Paula uma Teresa e, por aquela noite ao menos, fui feliz como há algum tempo não era. Os peixes seguiam aumentando de número, mais um pouco transbordariam pela borda do aquário. Teresa adquiria já uma cor azulada fingida de cinza, a cor de um barco cujos marinheiros já tenham se calado. Solitário, eu e Paula, adormeci o resto de noite e preparei-me para ser um resto de homem no dia inteiro que tinha pela frente. Na manhã seguinte, deixei Paula dormindo e fui trabalhar. Na volta para casa , Paula me disse já ter arrumado um pouco as coisas, tudo parecia limpo e a louça estava lavada. Vi ao redor do aquário um punhado de peixes mortos, Paula não teve coragem de tirá-los dali. Fui tomar banho com o sabonete que Paula tinha comprado. Ao passar pela cozinha, vi que ela estava cozinhando algo, batia com força em dois pedaços grandes de bife. Assisti ao programa de esportes tomando mais um copo de uísque, meu terceiro no dia. Jantei solitário, novamente eu e Paula. Cuidei se as portas estavam fechadas, tranquei as janelas, transei com Paula na mesa da cozinha, dei comida para o cachorro na rua e fechei a torneira do banheiro que insistia em pingar. Sonhei com peixes e com um mar bravo, sonhei com a palavra que se desfazia em meu de dentro. Quando acordei no dia seguinte, não lembrava nem da palavra nem do mar, mas tinha um cheiro de maresia nas palmas das mãos. Paula continuava dormindo. Ao passar pela cozinha, percebi que ela tinha esquecido o martelo de bife em cima da mesa. Não me dei ao trabalho de guardar. Voltei do trabalho cansado , era sexta-feira e eu queria aproveitar a noite. Paula me esperava com duas velas acesas sobre a mesa da cozinha, dois filés ao molho madeira e uma garrafa de vinho tinto aberta. Beijei-a como nunca havia feito de ninguém tão mulher, cheirei seu cabelo de menina crescida e mordi de leve o seu lábio inferior. Ela serviu-me de vinho. Comi com a tranqüilidade da resignação, os braços frouxos de tanto esquecer. Paula contou-me do seu dia de mulher de casa, de assistir televisão, de ler um romance barato, de conversar com os vizinhos, de pensar em ter filhos. Paula tinha arrumado algumas coisas. A nova empregada varreu para fora de casa os estilhaços de Teresa.. |
sábado, 26 de julho de 2008
Uma história rasa
De repente a sala estava toda molhada, o tapete, o quarto, a cozinha, o chão todo estava encharcado. E no meio da sala estava o peixe se debatendo. Ela encontrou o aquário caído no chão com apenas um pouco de água dentro, um ou dois centímetros de altura de água.
A torneira vazia, nem um pingo, não havia água no chuveiro nem no vaso sanitário. Estava tudo vazio e a água no chão penetrando no concreto, na madeira, nos tecidos, pingando na cortina.
Ela pegou o peixe e o colocou na palma da mão.
Ele sabia que faltava pouco. Ele já não conseguia respirar e sufocava aos poucos. Ela achou melhor colocá-lo no pouco de água do aquário para que pelo menos sua pele não ressecasse. Ela ainda empurrou a cabeça do peixe no fundo do recipiente para que ficasse submerso, mas a água não era suficiente. Ele pensou que faltava muito pouco para que tudo aquilo acabasse, e lembrou de tudo que desejava e sonhava e que gostaria de ter dito e não disse, e do que gostaria de ter feito. E agora ele sabia que a qualquer momento tudo seria diferente, ou nem seria mais. E a voz dela ficava longe e lenta, e ele já não sabia se estava ali a horas, dias ou um minuto, porque nunca um minuto foi tanto tempo para saber de tanta coisa. E seu corpo não sacudia mais e ele decidira apenas relaxar a cauda e as barbatanas e manter os olhos abertos. Houve o momento então em que sua última inspirada involuntária travou as brânquias e ele pôde sentir seu coração palpitar lentamente e quase se força por mais duas vezes, e agora sentia pela última vez a água tocar suas escamas na metade submersa de seu corpo e pela última vez viu a garota pelo reflexo do vidro e pela primeira vez gostou de estar dentro do vidro e tê-la por perto, quando então esqueceu de tudo.
A torneira vazia, nem um pingo, não havia água no chuveiro nem no vaso sanitário. Estava tudo vazio e a água no chão penetrando no concreto, na madeira, nos tecidos, pingando na cortina.
Ela pegou o peixe e o colocou na palma da mão.
Ele sabia que faltava pouco. Ele já não conseguia respirar e sufocava aos poucos. Ela achou melhor colocá-lo no pouco de água do aquário para que pelo menos sua pele não ressecasse. Ela ainda empurrou a cabeça do peixe no fundo do recipiente para que ficasse submerso, mas a água não era suficiente. Ele pensou que faltava muito pouco para que tudo aquilo acabasse, e lembrou de tudo que desejava e sonhava e que gostaria de ter dito e não disse, e do que gostaria de ter feito. E agora ele sabia que a qualquer momento tudo seria diferente, ou nem seria mais. E a voz dela ficava longe e lenta, e ele já não sabia se estava ali a horas, dias ou um minuto, porque nunca um minuto foi tanto tempo para saber de tanta coisa. E seu corpo não sacudia mais e ele decidira apenas relaxar a cauda e as barbatanas e manter os olhos abertos. Houve o momento então em que sua última inspirada involuntária travou as brânquias e ele pôde sentir seu coração palpitar lentamente e quase se força por mais duas vezes, e agora sentia pela última vez a água tocar suas escamas na metade submersa de seu corpo e pela última vez viu a garota pelo reflexo do vidro e pela primeira vez gostou de estar dentro do vidro e tê-la por perto, quando então esqueceu de tudo.
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Depois de ter prendido meus cabelos nas fitas crepe eu o considerei perigoso para se ter por perto. O meu corpo também é prolongado pelos fios e o que não se considera órgão, mas as unhas e fios e babas e palavras e gestos todos fazem parte do meu corpo e da minha alma e dói igual o tapa, o silêncio ou a mentira.
E ter os membros mutilados por qualquer motivo que não seja meu desejo ou responsabilidade me enraivece pois é agressão e não sou tão patética e passiva que deixe isso em vão e compreenda o teu desejo de nem pensar se eu ou qualquer pessoa será atingida pelo teu grande salto no irracional que fantasia a arte e é apenas descabido e nojento porque sim atinge e dói e mata e não vale a pena o salto por isso.
E ter os membros mutilados por qualquer motivo que não seja meu desejo ou responsabilidade me enraivece pois é agressão e não sou tão patética e passiva que deixe isso em vão e compreenda o teu desejo de nem pensar se eu ou qualquer pessoa será atingida pelo teu grande salto no irracional que fantasia a arte e é apenas descabido e nojento porque sim atinge e dói e mata e não vale a pena o salto por isso.
Eu estou quieta e me sinto mal e gostaria de ser transparente e sair pela fresta da porta, mas não sem antes cuspir na tua boca. Eu estou aqui no canto e sei que estou constrangendo aqueles lá do outro lado que sabem que eu estou aqui sentada escrevendo e esperando as lágrimas secarem e todos sabemos que todos existem nessa sala mesmo fazendo de conta que compreendemos a distância ou que não há nada entre nós, mas um ouvido e fios transparentes que não relaxam e estão apreensivos.
Eu gostaria de ter prazer e beleza e saber mesmo, senão a onde ir, sim ter os olhos abertos para caminhar com atenção e dar o passo com sabedoria. Não à estupidez! A cegueira caga.
e peço desculpas pela minha agressão.
No dia seguinte encontro estas imagens dou risada. meu amigo me liga pedindo o telefone do meu cabeleireiro e minha vizinha faz alguma coisa com fitas durex, e as desenrola tão forte que escuto da janela da cozinha
e peço desculpas pela minha agressão.
No dia seguinte encontro estas imagens dou risada. meu amigo me liga pedindo o telefone do meu cabeleireiro e minha vizinha faz alguma coisa com fitas durex, e as desenrola tão forte que escuto da janela da cozinha
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Sempre fui magro, um corpo onde os ossos podiam ser vistos desenhados atrás da minha pele.Comecei a praticar esportes, a fazer musculação. Esconder a minha estrutura óssea, deixar transparecer os músculos definidos na adolescência parecia mais reconfortante numa fase da vida onde se busca a auto afirmação a todo instante. Agora, aos 32 anos, quero justamente buscar o confronto com essa estrutura profunda, mais primitiva do corpo humano. A partir dela que todo o resto se molda, músculos e órgãos. Retirar essa estrutura, a que tem mais afinidade com a eternidade, um corpo sem ossos. Nosso corpo tem mais de 200 ossos. Como primeira etapa, que vai ao encontro de estímulos para performance (a partir das idéias de Ligya Clark- diálogo de mãos), cada performer deve encontrar, através do toque, o maior numero possível de ossos do seu corpo. Trazer a estrutura escondida para a superfície, torná-la tátil, contar qntos ossos conseguimos encontrar em nós mesmos, de preferência com um espelho a frente, não apenas como imagem duplicada,mas para executar a task com alguém, com o outro que somos nós mesmos. Um poster da estrutura óssea pode estar pendurado no fundo da sala...Puxar o esqueleto para fora. A seguir, procurar no corpo do outro esses ossos, contar os ossos que se consegue tocar no corpo do outro, uma experiência tátil-óssea.Um segundo passo.
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